quarta-feira, 17 de março de 2010

Sentimento vazio

São Paulo, 05 de março de 1983.
Noite, nada estrelada, tempo feio, ônibus lotado... pessoas te esmagando e só porque você é magrinha acham que tem o direito de te levar junto com esses bundões que só por Deus viu.
O motorista parecia que tinha problemas com banheiro, afinal toda vez que alguém apertava aquela bendita campanhia pra informar que ia descer no próximo o motorista já ia preparando sua freiadas inéditas.. uma delas eu quase atravessei a catraca, é, sério... se fosse idosa tinha graça era só ficar lá na frente bajulando os velhos e pimba, mas era jovem, era não, ainda sou... nesse balancejo do ônibus, no desenrolar que meu estomago está fazendo depois do Mc cheddar do Mc Donald, no sono e no cansaso que as pessoas transmitem, pareciam até querer me levar junto com precisão, nos momentos loves de uma garota apaixonada pelo seu novo namorado que pode estar botando um chifre nela à duas quadras perto da casa dela... esses celulares viu, foi aí... filmei... ninguém mandou eu ter olhos tão potentes, olhei para a janela do ônibus e vi a sombra de uma moça cosando os olhos, e tentando disfarçar que tudo estava bem, bem mal por sinal né, aqueles foninhos de ouvido pareciam deixar ela pior, ela cantava baixinho, somente para ela escutar, devia ser alguma música romântica que a cada frase que ela repetia a emoção era maior e se via a vontade de derramar lágrimas jamais vistas, e aqueles foninhos de ouvido pareciam o seu melhor inimigo naquela hora, de forma alguma não alegrava, só entristecia, e as horas passavam e o sofrimento era maior, mas dava pra se notar a impaciência da moça, as bufadas com a boca, as olhadas para os lados para disfarçar as lágrimas e tudo isso me parecia novela mexicana. Quando começei a me intereçar como telespectadora fanática um carinha levanta e dá o lugar para ela sentar, the end, não vi seu rosto, não vi quem eras, e também nunca mais verei.

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